NEM SEMPRE É O CONGRESSO
Bolsonaro teve baixos índices de aprovação de projetos no Congresso. Lula, por sua vez, bate recordes de aprovação. Alguma coisa está errada.
Ou o governo está em sintonia com a direita neoliberal, ou a base governista é sólida o suficiente para aprovar qualquer proposta. Ou talvez ambas as situações, se considerarmos que os projetos aprovados são, em sua maioria, impopulares.
Uma curiosidade esquecida: a Fazenda queria implementar um pente-fino radical no Benefício de Prestação Continuada (BPC). Ao invés de cortar 1 milhão de famílias do benefício, o número seria muito maior. A justificativa para os cortes eram supostas fraudes. No entanto, na hora da votação em plenário, os deputados do Centrão consideraram as medidas do governo "duras demais" e decidiram manter, em linhas gerais, as regras atuais para a concessão.
Uma curiosidade alarmante: Fernando Haddad vem pedindo há tempos a desvinculação das despesas obrigatórias com saúde e educação. Isso significa que as bandeiras históricas da esquerda em defesa do orçamento irrestrito dessas áreas seriam queimadas em praça pública. Em outras palavras, haveria um novo teto de gastos para saúde e educação, o que efetivamente resultaria em desinvestimentos nesses setores ao longo dos anos.
Uma curiosidade absurda: o Conselho Monetário Nacional (CMN), orientado pelos ministros de Estado, definiu metas de inflação inalcançáveis de 3% ao mês, mesmo ciente de que haveria crescimento econômico acima do projetado. Não seria mais sensato estabelecer essa meta em níveis reais de 5%? O não cumprimento dessa meta irreal de 3% resulta em aumento de juros e desaceleração da economia. Vale lembrar que a política de metas inflacionárias não precisa ser aprovada pelo Congresso; é o próprio governo que coloca a corda no seu pescoço.
Uma curiosidade antecipada: Bolsonaro destruiu os estoques reguladores da Conab, os quais eram fundamentais para o controle de preços dos alimentos. O governo sabia que precisava retomar esses estoques assim que assumisse a gestão. Contudo, até dezembro de 2024, conforme verificado no site da Conab, os estoques continuavam zerados. E o pior: a banca organizadora para a retomada dos concursos da companhia ainda não havia sido lançada, dois anos depois!
Uma curiosidade final: recentemente, Haddad e representantes do mercado financeiro se vangloriaram do "maior ajuste fiscal da História". De fato, o governo Lula gastou em investimentos públicos até agora, proporcionalmente ao tempo, menos do que os governos Temer e Bolsonaro. Nesse sentido, Haddad se mostra mais eficiente que Guedes.
Essas são críticas à esquerda do governo. São alertas para que Lula perceba que o caminho seguido leva a lugar nenhum. Ou melhor, leva à impopularidade e pode resultar em uma derrota eleitoral em 2026.
via Daniel Spirin Reynolds