CRISE DE PERCEPÇÃO UMA OVA!
Recentemente, me forcei a ler um artigo de um sociólogo que afirma que a baixa popularidade do governo Lula é resultado de uma "crise de percepção" da sociedade. No texto, o autor, que parece ter feito um esforço hercúleo para evitar a responsabilidade, joga no colo do povo a culpa pelos deslizes de uma administração que apostou tudo na impopularidade e caminhou de braços dados com os especuladores, ambos viajando no carro da austeridade fiscal.
O sociólogo não consegue entender como um ganho real de renda superior a 10% não é percebido pela população. Um ganho impressionante, considerando o recente desaquecimento da economia e as perdas de direitos.
Entretanto, o que ele não "percebe" (sim, é para ser infame) são as ações do governo que praticamente anulam qualquer sensação de melhora. A inflação nas principais capitais brasileiras, especialmente a dos alimentos e dos aluguéis, torna qualquer ganho real do salário mínimo irrelevante. Assim, os possíveis benefícios de um aumento salarial se dissolvem nas contas de luz, gás, carne, ovos e tarifas de transporte.
Outro ponto negativo do governo é sua sanha arrecadatória, que avança sobre as classes mais baixas e médias. A taxação de blusinhas, os cortes brutais no BPC, o pente-fino no Bolsa Família, a redução da faixa do abono salarial e o crédito caro são apenas algumas das medidas que impactam diretamente os mais vulneráveis.
Até agora, a única proposta que envolveria o "andar de cima" seria um percentual maior de desconto do imposto de renda para quem ganha acima de 600 mil reais por ano, como forma de compensar uma sonhada isenção do IRPF para as camadas mais baixas. Essa proposta só surgiu após o barco da popularidade afundar, quando deveria ter sido apresentada na primeira semana de governo.
Nosso ministro da Fazenda, em sintonia com o Banco Central, admite que uma "desaceleração da economia é necessária" para equilibrar inflação e PIB, quando, na verdade, a crise inflacionária é gerada pela falta de regulação estatal das exportações e pela incapacidade de atuar como agente controlador de preços via estoques regulatórios.
A tal crise de percepção não existe. O que realmente está presente é uma população vulnerabilizada no mercado de trabalho, explorada e vítima de uma reforma trabalhista que sequer é atacada pela administração petista. Hoje, cerca de 40 milhões de brasileiros trabalham sem direitos, sem saber o que vão comer no dia seguinte. Isso sim a população percebe. Ela nota que o governo não move uma palha para levar a opinião pública a se manifestar contra a perda de direitos trabalhistas.
O sociólogo de Brasília ignora a falta de segurança pública no país. Pesquisas mostram que a maior preocupação do povo é a violência urbana, que supera a preocupação com a saúde. O que o governo faz? Limita-se a elaborar um trabalho secundarista sobre a "interligação das polícias", tratando o tema como se fosse solucionável com meras medidas administrativas.
Sobre a política de segurança, dizem que isso é "atribuição dos estados" e lavam as mãos, como se a União não pudesse fazer nada. A União pode fazer muito, como triplicar o efetivo da Polícia Federal, investir em controle das fronteiras com tecnologia, trabalhar com o fisco para investigar e punir os poderosos que se locupletam dos recursos do crime organizado, condicionar repasses federais a resultados efetivos nos estados e, principalmente, atuar na opinião pública para a reforma do Judiciário.
O ódio que um cidadão sente ao perder seu celular para um bandido se volta contra a imagem do governo.
Alguns companheiros dirão que não é uma crise de percepção, mas sim uma crise de comunicação. O que o governo tem a dizer? Ah, o desemprego é o menor da história! Diga isso para a legião de uberizados, pejotizados e vendedores de latinhas. Ah, mas o PIB está crescendo acima do esperado! Quem come PIB? O ovo está mais caro que o frango. O crédito...
A bipolaridade do governo é assustadora. Liberam crédito consignado para o brasileiro pagar dívidas! Sim, anunciam a liberação do FGTS, um dinheiro que é do trabalhador, via empréstimos onde este trabalhador pagará juros! Uma loucura.
Ao mesmo tempo em que o governo propõe aquecer o mercado consumidor e comemora a alta do PIB, também diz que é importante "desacelerar". Essas barbaridades, o povo percebe.
Mas, claro, a culpa é sempre do povo, que não sabe apreciar as maravilhas do "ganho real" enquanto luta para não ser engolido pela inflação. Afinal, quem precisa de comida e segurança quando se tem uma crise de percepção, não é mesmo?
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