"O Trotskismo, quando não extremamente vulgar, é cheio de contradições interessantes. Estou terminando de Ler: Rogovin, 1937: Stalin's Year of Terror. Um historiador Russo trotskista.
Ele sugere que, pelo menos em 1957, Molotov e Kaganovich usavam a "página trotskista" da biografia de Khrushchev como um argumento político contra ele, o que indica que tal acusação ainda era considerada séria dentro da alta cúpula soviética. Mas o ponto mais intrigante é a lembrança de Khrushchev, trinta anos depois, de que aqueles que foram presos no período do Grande Terror eram realmente "inimigos do povo", pois enganavam o povo.
O fato de um historiador trotskista como Rogovin incluir esse trecho é, à primeira vista, um gol contra: Khrushchev está validando os expurgos, tendo um passado Trotskista e uma obra antistalinista. No entanto, Rogovin quer demonstrar como mesmo aqueles que viveram ao período de Stalin foram "influenciados por sua narrativa", absorvendo a lógica dos expurgos e usando-a posteriormente para seus próprios fins. O que se encaixa na visão trotskista de que a "burocracia stalinista" criou uma "mentalidade de paranoia e repressão que persistiu mesmo após a morte de Stalin". No fim, Stalin surge como onipotente e onipresente, manipulando tudo mesmo depois de morto, e aqueles que o combatem. Stalin é o supradeus da mitologia de alguns.
A própria posição de Khrushchev sobre os expurgos é considerada ambígua para os antistalinistas mais radicais. No famoso "Relatório Secreto" de 1956, ele criticou Stalin por abusos e execuções injustificadas, mas criticava com limites a oposição e os trotskistas dos anos 1920. Khrushchev parecia sugerir que Stalin simplesmente exagerou na dose e atacou muitas pessoas leais. Se levarmos a sério seu relato posterior, poderíamos interpretar que ele continuava acreditando que havia inimigos reais infiltrados, mas que Stalin teria sido seletivo demais em quem punir.
No final, Rogovin expõe uma contradição na própria narrativa anti-stalinista de Khrushchev. Se ele realmente acreditava que os expurgos eliminaram elementos hostis ao regime, então sua crítica posterior a Stalin se tornava menos uma questão de princípio e mais uma disputa sobre métodos. Para um historiador trotskista, isso pode ser lido como evidência de como o aparato burocrático stalinista condicionou até mesmo seus opositores internos a aceitarem a repressão como um instrumento legítimo do poder soviético. Segundo Rogovin:
"Sabendo que, durante uma discussão sobre as candidaturas, qualquer ligação mínima de cada candidato no passado com o “trotskismo” seria apresentada de maneira extremamente tendenciosa, Khrushchev ficou apavorado com a possibilidade de alguns delegados se lembrarem de uma página perigosa de sua biografia: durante os debates de 1923, ele havia apoiado Trotsky na questão da democracia interna do partido. Entendendo que, se esse fato viesse à tona no clima acalorado da conferência, ele "teria muita dificuldade para explicar", Khrushchev decidiu confessar diretamente a Stalin. Imaginando quais seriam as consequências dessa confissão, ele pediu conselhos a Kaganovich, que na época estava muito bem disposto em relação a ele. Kaganovich, que "havia sido encarregado de supervisionar uma conferência de Moscou", começou a desencorajar fortemente Khrushchev de suas intenções de contar a Stalin sobre suas "vacilações trotskistas". Apesar dos alertas, Khrushchev decidiu relatar a Stalin "sobre o erro do incidente em 1923", para não parecer na conferência como alguém "que escondeu informações comprometedoras".
Depois de contar a Stalin sobre seu "erro", Khrushchev acrescentou que "tinha sido enganado naquela época por Kharechko, que era um trotskista bastante conhecido". Stalin reagiu às suas palavras dizendo: "Kharechko? Ah, eu o conheci. Ele era um homem interessante." (Na época, Kharechko estava em um campo de trabalhar em Kolyma). Khrushchev disse a Stalin que deveria falar na conferência sobre seu "erro" do passado distante. Stalin respondeu: "Pelo que me diz respeito, você não precisa mencionar". Molotov, que estava presente durante essa conversa, objetou: "Não, seria melhor se ele falasse." Stalin casualmente: "Sim, é melhor você falar sobre isso, porque, se não o fizer, alguém pode explorar isso, e então eles vão te bombardear com perguntas e a nós com denúncias."
Trinta anos depois do evento, Khrushchev lembrou que essa discussão gerou nele a certeza de que "aqueles que tiveram sido presos eram realmente inimigos do povo, embora precisassem de forma tão astuta que não conseguisse perceber por causa de nossa inexperiência, cegueira política e confiança excessiva. Stalin... pareceu crescer ainda mais no pedestal: ele via tudo, sabia tudo, julgava os erros das pessoas de forma justa, defendia e apoiava pessoas honestas e punia aqueles que não mereciam confiança."
Kaganovich tratou esse episódio de maneira um pouco diferente em suas conversas com Chuev. Kaganovich relatou que Khrushchev veio correndo até ele com lágrimas nos olhos: "O que devo fazer? Devo falar na conferência ou não?" Kaganovich prometeu buscar conselhos sobre essa questão com Stalin. Quando soube que Khrushchev "tinha sido trotskista", Stalin perguntou: "E agora?" Kaganovich respondeu: "Ele é muito ativo e luta sinceramente." Então Stalin disse: "Deixe-o falar, deixe-o contar sobre isso. Depois você deve falar e dizer que o Comitê Central sabe disso e confia nele..." Como Kaganovich lembrou, "Foi exatamente isso que foi feito."
O episódio do "passado trotskista" de Khrushchev teve uma continuação notável. Na sessão do Presidium do Comitê Central em junho de 1957, quando Molotov e Kaganovich propuseram remover Khrushchev de sua carga como Primeiro Secretário do Comitê Central, um de seus principais argumentos foi referido ao "trotskismo" de Khrushchev. Kaganovich foi particularmente apaixonado por expor Khrushchev como um "trotskista". Quando vários participantes da sessão começaram a protestar contra esse "método inadmissível", Molotov declarou: "Mas tudo isso aconteceu."
Rogovin, Vadim. 1937: Ano do Terror . Oak Park, Michigan: Labor Publications, 1998, p. 301-302.
O diálogo de Molotov e Stalin — "Sim, é melhor você falar sobre isso, porque, se não o fizer, alguém pode explorar isso, e então eles vão te bombardear com perguntas e nós com denúncias." — revela muito sobre o funcionamento interno do Partido Comunista da União Soviética (PCUS) na época.
Primeiro, ela mostra que o contexto social e político no alto escalão do partido era profundamente marcado pela vigilância e pelo medo de acusações, nem Stalin poderia escapar de uma acusação de trotskismo ou de inimigo. Mesmo uma figura como Khrushchev, que já estava inserida no círculo de confiança de Stalin, precisava tomar a iniciativa de criticar seus erros antes que alguém os usasse contra ele.
Segundo, o diálogo de Molotov e de Stalin indica que as denúncias não surgiam espontaneamente, mas faziam parte de um mecanismo político: se uma falha do passado de alguém não fosse publicamente explicada, ela poderia ser usada como arma pelos adversários porque essas falhas acarretaram prejuízos ao povo. Isso mostra que as denúncias não eram apenas instrumentos da repressão de Stalin contra “inimigos reais ou imaginários”, como gostam de dizer os antitotalitários.
Por fim, essa lógica de "se você não confessar, alguém vai usar isso contra você" reforça a ideia de que os expurgos não eram apenas um reflexo da paranoia de Stalin, mas sim uma dinâmica estrutural da época e do medo da guerra mundial, onde a busca pela ortodoxia ideológica e pela lealdade absoluta levava a um ciclo de investigações, que, às vezes, eram aliviadas ou não. O que Molotov e Stalin descrevem não é uma ditadura, mas uma estrutura de poder altamente complexa dentro da sociedade soviética, no qual até os mais altos dirigentes precisavam se proteger contra denúncias e provar constantemente sua lealdade. Essa é a pressão que a guerra naturalmente cria, nada tem a ver com o socialismo em si, e nem está em contradição com a participação popular, a democracia nas fábricas e tudo mais."
@austra_lopiteco
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